Tempestade elétrica: o que o posicionamento SBC 2026 traz
A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, em abril de 2026, o Posicionamento sobre Diagnóstico e Tratamento da Tempestade Elétrica. O documento foi feito pelo grupo de emergências cardíacas e cardiointensivismo da SBC em conjunto com a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC). E foi escrito com um público explícito: médicos “cardiologistas ou não”. Ou seja, quem pega o paciente primeiro no PS ou na UTI.
O que mudou
Uma definição padronizada. O posicionamento define tempestade elétrica como a ocorrência de três ou mais episódios de taquicardia ventricular sustentada, fibrilação ventricular ou choques apropriados do cardioversor-desfibrilador implantável (CDI) em 24 horas, separados por pelo menos 5 minutos.
O tamanho do risco. O texto afirma que a mortalidade pode chegar a 14% nas primeiras 48 horas. Em comparação com pacientes com episódios isolados de TV/FV, a tempestade elétrica aumenta em 2,4 vezes o risco de morte na internação e em até 5,4 vezes nos 3 meses seguintes. Entre portadores de CDI, ocorre em 4% a 40% dos pacientes, segundo o documento.
O dado brasileiro. O posicionamento cita metanálise recente com incidência de 9,1% ao ano na cardiopatia chagásica crônica, um recorte que pesa no Brasil.
Gatilho nem sempre aparece. O documento recomenda investigar gatilhos e substratos, mas lembra que, na maioria dos casos, não há causa clara: num estudo citado, o gatilho foi identificado em só 13% dos pacientes.
Uma abordagem em passos. A figura central organiza o atendimento em etapas: primeiro a avaliação inicial e a estabilização, separando paciente instável (suporte avançado de vida, desfibrilação ou cardioversão) de estável. Depois, a análise do ritmo, distinguindo TV monomórfica, fibrilação ventricular e TV polimórfica, com QT normal ou longo. Cada ramo leva a um conjunto diferente de opções terapêuticas.
Supressão simpática no centro. O texto dá papel “fundamental” aos betabloqueadores e descreve estratégias de redução do tônus simpático, de medidas simples como ambiente calmo até sedação, intubação em casos refratários e bloqueio do gânglio estrelado guiado por ultrassom à beira do leito.
O CDI entra na avaliação inicial. Em portadores de CDI, verificar se houve terapias e se foram adequadas é descrito como passo fundamental da avaliação.
Exames. A avaliação laboratorial listada inclui hemograma, troponina ultrassensível, BNP, TSH e T4 livre e eletrólitos (sódio, potássio, cálcio e magnésio), além de exames dirigidos à etiologia.
Por que importa pro plantão
O próprio documento justifica sua existência: diz ser “imprescindível que os médicos clínicos, cardiologistas, emergencistas e intensivistas reconheçam e tratem adequadamente a TE”.
Tipo: o paciente com CDI que chegou depois de três choques em uma noite não espera a manhã nem o arritmologista. A primeira hora fica com quem está de plantão. E a primeira decisão, segundo o fluxograma, é separar estável de instável e olhar o ritmo, antes de qualquer outra coisa.
Outro ponto que ajuda na prática: a definição numérica tira o diagnóstico do campo da impressão. Três episódios em 24 horas, separados por 5 minutos. Ficou claro que não é “muita arritmia”, é critério.
Só que aí vem a ressalva. O posicionamento traz tabelas com fármacos e doses e discute terapias que dependem de cardiologia, eletrofisiologia e estrutura, como ablação e programação do CDI. Ler um resumo e aplicar no leito é cilada. A leitura tem que ser no documento original.
O que fazer com isso
1. Ler o posicionamento completo. O texto está aberto no PMC e em PDF nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. A figura central e as tabelas de tratamento são o que mais vale salvar.
2. Conferir o protocolo do serviço. Se a UTI ou o PS onde você dá plantão tem protocolo de arritmia ventricular, vale ver se ele conversa com o posicionamento, inclusive sobre quem acionar e como avaliar o CDI.
3. Ter o contato de referência. Saber de antemão quem é a cardiologia ou a arritmologia de sobreaviso economiza minutos quando o caso aparece.
4. Ligar o tema a outras atualizações. Este ano também trouxe a nova definição universal de insuficiência cardíaca, e o monitor que avisa a arritmia é o mesmo da discussão sobre fadiga de alarmes na UTI.
O posicionamento é documento de sociedade médica; a conduta em cada caso segue o protocolo da instituição e a avaliação do médico responsável, com cardiologia quando indicado. Os demais documentos da SBC ficam reunidos no portal de diretrizes da sociedade.
Manter a escala de UTI e PS coberta, com quem sabe o que fazer na primeira hora, é o tipo de gestão que o Pego Plantão facilita.
Fontes citadas
- Posicionamento sobre Diagnóstico e Tratamento da Tempestade Elétrica – 2026 (PMC) · acessado em 2026-10-08
- Arq Bras Cardiol. 2026;123(4):e20260215 — Posicionamento sobre Tempestade Elétrica (PDF) · acessado em 2026-10-08
- Diretrizes e posicionamentos da Sociedade Brasileira de Cardiologia · acessado em 2026-10-08
Perguntas frequentes
O que é tempestade elétrica pelo posicionamento da SBC 2026?+
É a ocorrência de três ou mais episódios de taquicardia ventricular sustentada, fibrilação ventricular ou choques apropriados do CDI em 24 horas, separados por pelo menos 5 minutos.
Quem publicou o posicionamento sobre tempestade elétrica?+
O Grupo de Estudos em Coronariopatias, Emergências Cardíacas e Cardiointensivismo da SBC, com a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC), nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, em abril de 2026.
Qual a mortalidade da tempestade elétrica?+
Segundo o posicionamento, pode chegar a 14% nas primeiras 48 horas. Em comparação com episódios isolados de TV/FV, a tempestade elétrica aumenta em 2,4 vezes o risco de morte na internação e em até 5,4 vezes nos 3 meses seguintes.
O posicionamento é só para cardiologista?+
Não. Um dos objetivos declarados é fornecer orientação prática para médicos, cardiologistas ou não, e equipes multiprofissionais sobre abordagem inicial, diagnóstico e estabilização.
O que fazer com o CDI de um paciente em tempestade elétrica?+
O posicionamento coloca a checagem das terapias do CDI, e se foram adequadas, como passo da avaliação inicial. A conduta específica depende do caso e deve seguir o documento, o protocolo do serviço e a avaliação de cardiologia ou arritmologia.