IC 2026: nova definição universal muda a linguagem do plantão
Em 29 de junho de 2026, quatro das maiores entidades de cardiologia do mundo publicaram juntas a Segunda Definição Universal de Insuficiência Cardíaca. American Heart Association, American College of Cardiology, European Society of Cardiology e World Heart Federation assinam o documento, que atualiza a primeira definição, de 2021. Não é diretriz de tratamento. É o documento que define como médicos, pesquisadores e sistemas de saúde devem nomear e classificar a IC, e isso chega direto na evolução que o plantonista escreve às 3h da manhã.
O que mudou
Adeus aos cortes rígidos de fração de ejeção. O consenso deixa de usar faixas numéricas fixas de FE para classificar fenótipos e simplifica em três grupos: IC com FE reduzida, IC com FE preservada e IC com FE melhorada. O argumento vem no próprio texto: o limite inferior da FE normal é de cerca de 53% em mulheres e 52% em homens, e uma FE abaixo de 50% dificilmente reflete função normal, independentemente de sexo, idade ou etnia. A faixa intermediária, que muita gente decorou como “levemente reduzida”, perde o papel de categoria separada.
IC com FE melhorada ganha contorno claro. O documento descreve esse grupo como pacientes com IC de FE reduzida prévia que tiveram aumento de 10 pontos ou mais na FE, chegando a um valor acima de 40%. E faz uma ressalva: estrutura alterada, biomarcador elevado ou sintoma residual costumam persistir. FE melhorada não é IC curada.
IC em piora e IC descompensada viram coisas diferentes. Aqui tá a mudança mais prática pra quem trabalha em pronto-socorro. Pelo consenso:
- IC em piora exige diagnóstico prévio de IC. É a deterioração progressiva de sintomas, sinais e qualidade de vida. Ficam de fora os casos novos e as pioras atribuídas principalmente a gatilhos não relacionados à progressão da doença, como síndrome coronariana aguda, infecção ou má adesão ao tratamento.
- IC descompensada é definida pela necessidade de escalar o cuidado ou de terapia de resgate. O traço que a define é a intensificação do tratamento, que tipicamente envolve aumento da dose de diurético, associação de diuréticos e, se ainda não houver, início da terapia médica recomendada por diretriz. Pode acontecer em qualquer fase da doença.
Classificação universal das causas. O documento propõe uma lista padronizada de grupos etiológicos no lugar da divisão binária “isquêmica ou não isquêmica”. Entram categorias como cardiomiopatia hipertensiva, valvar, relacionada a arritmia, infiltrativa, infecciosa, tóxica, hereditária, relacionada à gestação e induzida por estresse. O consenso também registra a variação geográfica: a doença isquêmica responde por mais de 50% dos casos de IC em regiões ocidentais de alta renda e por 30% a 40% na América Latina e Caribe.
Por que importa pro plantão
Tipo: quem já passou a noite num PS sabe que “IC descompensada” virou rótulo pra qualquer paciente com dispneia e edema. O consenso fecha essa porta. Se o gatilho é pneumonia, síndrome coronariana ou paciente que parou o diurético, não é “IC em piora” no sentido técnico. E o que caracteriza descompensação é o que foi feito: escalou diurético, associou outro, precisou de resgate.
Isso muda o que a evolução precisa registrar.
O segundo ponto é o peptídeo natriurético. O consenso afirma que uma parcela relevante dos pacientes com IC de FE preservada tem BNP ou NT-proBNP normal, mesmo com evidência hemodinâmica inequívoca de IC. Com obesidade, o exame físico perde especificidade e o peptídeo pode vir falsamente normal. Só que aí o documento reforça o papel da imagem: ultrassom pulmonar, radiografia de tórax, ecocardiograma e tomografia aparecem como formas de confirmar congestão. Descartar IC só pelo peptídeo normal é cilada.
Terceiro ponto: prevenção começa antes da primeira internação. O consenso cita que quase 85% das pessoas com IC tinham pelo menos um fator de risco modificável identificável nos 5 anos anteriores ao diagnóstico. A nota da World Heart Federation estima mais de 64 milhões de adultos com IC no mundo. Hipertensão, diabetes e obesidade entram nessa conta, e o paciente diabético com IC sem SGLT2 descrito na Diretriz SBD 2026 é exemplo concreto de lacuna que aparece no PS.
O que fazer com isso
1. Registrar o gatilho e a intensificação. Na evolução do paciente com IC conhecida que chega pior, vale deixar escrito o provável precipitante (infecção, isquemia, arritmia, adesão) e o que foi escalado no tratamento. A nova terminologia depende exatamente dessas duas informações.
2. Descrever a FE sem forçar faixa. Em vez de encaixar o paciente numa faixa numérica decorada, registrar o valor da FE, o ecocardiograma prévio se houver e se a FE melhorou em relação a exame anterior.
3. Não descartar IC só pelo peptídeo. O documento é explícito sobre o peptídeo falsamente normal na IC de FE preservada, sobretudo com obesidade. A investigação complementar segue o protocolo do serviço.
4. Ler o original. O texto completo está em acesso aberto na Global Heart e indexado no PubMed. Vale a leitura das seções de terminologia e de modo de apresentação. Quem precisa de estratégia pra acompanhar esse tipo de atualização encontra ideias em como se manter atualizado sem ler paper toda semana.
O próprio documento diz que não é diretriz clínica nem ferramenta de decisão, e que recomendação de tratamento continua com as diretrizes das sociedades. A conduta em cada caso segue o protocolo da instituição e a avaliação do médico assistente, com cardiologista quando indicado.
Ficou claro que a linguagem da IC mudou. Manter a escala organizada, com tempo pra ler o que muda entre um plantão e outro, é o tipo de rotina que o Pego Plantão ajuda a sustentar.
Fontes citadas
- AHA/ACC/ESC/WHF Expert Consensus Document: Second Universal Definition of Heart Failure (2026) — Global Heart · acessado em 2026-09-28
- Second Universal Definition of Heart Failure (2026) — PubMed · acessado em 2026-09-28
- Global experts update heart failure definition to improve prevention, diagnosis and care — World Heart Federation · acessado em 2026-09-28
Perguntas frequentes
O que é a Segunda Definição Universal de Insuficiência Cardíaca?+
É um documento de consenso da AHA, ACC, ESC e World Heart Federation, publicado em 29 de junho de 2026, que atualiza a definição de 2021. Ele padroniza terminologia e classificação da IC, mas não é diretriz de tratamento.
A classificação de IC com fração de ejeção levemente reduzida (ICFElr) deixou de existir?+
O consenso abandona cortes rígidos de FE e simplifica em três grupos: FE reduzida, FE preservada e FE melhorada. O documento lembra que FE abaixo de 50% dificilmente reflete função normal.
Qual a diferença entre IC em piora e IC descompensada na nova definição?+
IC em piora exige diagnóstico prévio de IC e deterioração progressiva não explicada por gatilho externo, como síndrome coronariana aguda ou infecção. IC descompensada é definida pela necessidade de escalar o tratamento, por exemplo aumento de diurético ou terapia de resgate.
Peptídeo natriurético normal exclui insuficiência cardíaca?+
Não necessariamente. O consenso registra que uma parcela relevante de pacientes com IC de fração de ejeção preservada tem peptídeos normais, especialmente com obesidade, e reforça o papel da imagem na avaliação.
A nova definição muda o tratamento da IC no pronto-socorro?+
Não diretamente. O documento declara que não é diretriz clínica e que recomendações de tratamento continuam nas diretrizes das sociedades. A decisão terapêutica segue o protocolo da instituição e as diretrizes vigentes.