Diretriz Brasileira de IC 2026: o que muda para o plantão
A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou em 8 de outubro de 2026 a nova Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca, nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. O documento substitui a diretriz de IC aguda e crônica de 2018 e foi construído pelo método GRADE. Tem mais de 160 páginas. Pra quem recebe paciente congesto no PS, o capítulo de IC descompensada é o que mais pesa.
O que mudou
Método GRADE. Segundo o texto, a diretriz adota a metodologia GRADE: as recomendações passam a ser FORTE ou FRACA, A FAVOR ou CONTRA, com certeza da evidência de ALTA a MUITO BAIXA. Isso muda a forma de ler o documento em relação à versão de 2018.
Fim da “levemente reduzida”. A diretriz excluiu o termo “insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida” para pacientes com FEVE entre 41% e 49%. A justificativa: essa população compartilha características clínicas e resposta terapêutica semelhantes às da IC com fração de ejeção reduzida, e a faixa parece mais uma fase na trajetória da FE do que um fenótipo próprio. O termo IC com FE melhorada continua.
O movimento é o mesmo da Segunda Definição Universal de Insuficiência Cardíaca, publicada em junho pelas sociedades internacionais, que também abandonou cortes rígidos de FE.
Medicamentos na admissão. Para o paciente que chega com IC descompensada e já usa a terapia guiada por diretrizes, o texto afirma que estudos observacionais mostram ser segura e bem tolerada a manutenção desses medicamentos quando a hemodinâmica está estável e não há contraindicação, como disfunção renal grave e hiperpotassemia. Para quem não usava, a introdução deve ocorrer após a estabilização clínica, e não na admissão.
Descongestão com fluxograma. A diretriz traz um fluxograma para o diurético de alça na IC descompensada com sobrecarga de volume, organizado em fases:
- Primeira hora: dose inicial, que depende de o paciente já usar ou não diurético de alça, e início da coleta de urina
- Primeiras 6 horas: avaliação precoce da resposta pelo débito urinário, com ajuste de dose se a resposta for insuficiente
- Primeiras 24 horas: fase de resposta precoce, com reavaliação e decisão sobre a continuidade
O texto também registra que, diante de resposta subótima, aumentar a dose do diurético costuma ser mais eficaz do que repetir a mesma dose em intervalos curtos. As doses e os pontos de corte estão na Figura 7.5 do documento.
Ultrassom pulmonar. A diretriz descreve o ultrassom pulmonar à beira do leito como ferramenta rápida (menos de 5 minutos) e de baixo custo, com sensibilidade de 94% a 97% e especificidade de 97% para congestão em pacientes hospitalizados com suspeita de IC descompensada, e superior à radiografia de tórax e aos peptídeos natriuréticos nesse contexto.
Por que importa pro plantão
IC descompensada é rotina de PS e enfermaria. Tipo: o paciente que chega à noite com dispneia, edema e três remédios de IC na sacola. As duas primeiras decisões do plantonista agora têm referência nacional atualizada: o que fazer com a medicação de uso contínuo e como conduzir o diurético nas primeiras horas.
A lógica do fluxograma é de reavaliação com hora marcada. Não é “faz o diurético e vê de manhã”. O texto fala em avaliar a resposta nas primeiras 6 horas e ajustar. Ficou claro que a passagem de plantão precisa carregar essa informação: quanto foi feito, quando, e quanto o paciente urinou.
E a mudança de nomenclatura afeta a evolução. “Levemente reduzida” sai do vocabulário da diretriz brasileira.
Só que aí vem a ressalva. A diretriz tem mais de 160 páginas, com tabelas de dose, recomendações graduadas e capítulos sobre choque, dispositivos e IC avançada. Usar resumo de terceiro como protocolo de beira de leito é cilada.
O que fazer com isso
1. Ler o capítulo de IC descompensada no original. O PDF está aberto nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. A Figura 7.5 e o tópico de medicamentos na admissão são os mais úteis pro plantão.
2. Conferir o protocolo do serviço. Se o hospital tem protocolo de IC descompensada baseado na diretriz de 2018, vale levar a nova versão para a coordenação ou a cardiologia.
3. Registrar a resposta ao diurético. Débito urinário, peso e reavaliação com horário. É o que o fluxograma pede e o que o colega do turno seguinte precisa saber. O checklist de passagem de plantão ajuda a não perder isso.
4. Ver o que mais mudou em cardiologia este ano. O posicionamento sobre tempestade elétrica também saiu em 2026 e fala com o mesmo plantonista. A lista completa de documentos está no portal de diretrizes da SBC.
A diretriz é documento de sociedade médica; a conduta em cada caso segue o protocolo da instituição e a avaliação do médico responsável, com cardiologia quando indicado.
Escala organizada, com tempo de passagem de plantão bem feita, é o que garante que o paciente congesto da madrugada seja reavaliado na hora certa. É o tipo de gestão que o Pego Plantão facilita.
Fontes citadas
- Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2026 (Arq Bras Cardiol. 2026;123(10):e20260830, PDF) · acessado em 2026-10-14
- Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2026 — página do artigo nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia · acessado em 2026-10-14
- Diretrizes e posicionamentos da Sociedade Brasileira de Cardiologia · acessado em 2026-10-14
Perguntas frequentes
Quando saiu a Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca 2026?+
A diretriz foi publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia em 8 de outubro de 2026 (vol. 123, nº 10) e substitui a diretriz de IC aguda e crônica de 2018.
A ICFE levemente reduzida deixou de existir na diretriz brasileira?+
Sim. A diretriz excluiu o termo para pacientes com FEVE entre 41% e 49%, por compartilharem características clínicas e resposta terapêutica semelhantes às da IC com fração de ejeção reduzida. O termo IC com FE melhorada permanece.
O paciente que chega descompensado deve suspender os remédios de IC?+
A diretriz descreve como segura e bem tolerada a manutenção da terapia guiada por diretrizes em pacientes com hemodinâmica estável, na ausência de contraindicações como disfunção renal grave e hiperpotassemia. A conduta em cada caso segue o protocolo e a avaliação médica.
Como a diretriz organiza a descongestão na IC descompensada?+
Por um fluxograma em fases: dose inicial de diurético de alça dentro de 1 hora, avaliação da resposta nas primeiras 6 horas pelo débito urinário e ajuste nas primeiras 24 horas. As doses e critérios estão na Figura 7.5 do documento original.
Qual o papel do ultrassom pulmonar na diretriz?+
A diretriz descreve o ultrassom pulmonar à beira do leito como ferramenta rápida e de baixo custo, com sensibilidade de 94% a 97% e especificidade de 97% para congestão em pacientes hospitalizados com suspeita de IC descompensada.