Quanto custa abrir consultório médico solo em 2026?
Plantonista virando consultório em 2026. Vi esse movimento acontecer com médico de todas as especialidades — e quase sempre a conta chega errada. Todo mundo pergunta quanto custa abrir. Ninguém calcula quanto custa manter. Esses dois números são muito diferentes, e é no segundo que a conta quebra.
Vou te dar os números reais. Sem planilha romântica de “investimento mínimo R$5k” que circula em blog financeiro genérico. Antes de entrar no custo em si, tem um detalhe que vai cortar expectativa na raiz.
Se você está começando a pensar na decisão entre consultório e convênio, leia antes consultório próprio vs convênio: o que ninguém conta ao recém-formado — a base financeira é a mesma, mas o contexto é diferente.
Médico não pode ser MEI. Ponto.
Vi muito médico me perguntar se dava pra abrir MEI pra consultório. Não cola. O Microempreendedor Individual é vedado para profissões regulamentadas por conselho profissional. CRM é exatamente esse caso — isso está na Lei Complementar nº 123/2006 e é confirmado pela Receita Federal em qualquer tentativa de cadastro. Não é burocracia opinável. É bloqueio automático.
Você vai abrir SLU (Sociedade Limitada Unipessoal) ou LTDA com sócio. E vai precisar de contador desde o primeiro mês, não tem como contornar isso.
Formalização completa: junta comercial + inscrição municipal + certificado digital ICP-Brasil. Esse trio custa entre R$700 e R$2.000 dependendo do estado, com processo levando 2 a 4 semanas com contabilidade especializada. Contador pra médico solo: de R$200 a R$800/mês, dependendo do volume de notas e da complexidade tributária.
Depois do CNPJ aberto, vem o CRM-PJ: registro da empresa no Conselho Regional de Medicina do seu estado. Taxa de inscrição em torno de R$1.114 (referência SP 2026, varia por estado), paga uma única vez. A anuidade varia por capital social — consultório solo com capital até R$50.000 paga R$948/ano, conforme tabela publicada pelo CRM Virtual em 2026.
Mas tem um detalhe da Resolução CFM nº 2.447, de 25 de setembro de 2025 que pouca gente sabe: 80% de desconto na anuidade do CRM-PJ para empresas com no máximo 2 sócios (um obrigatoriamente médico), exclusivamente atividade médica, sem filial. Isso derruba o R$948 para menos de R$190/ano pra consultório solo padrão. O prazo de pedido pra 2026 já passou (era 20 de janeiro) — mas vale guardar pra renovação de 2027.
Aí vem um que aparece na segunda semana e pega muita gente de surpresa: a licença sanitária da Vigilância Sanitária municipal. Consultório médico é estabelecimento de serviço de saúde — opera sem ela e está sujeito à interdição. A taxa é calculada por metragem + complexidade da atividade, varia por município. A Anvisa confirma que a licença de funcionamento para estabelecimentos de saúde é obrigatória e emitida pela Vigilância Sanitária local. Não tem um número fixo nacional — consulte a Visa do seu município antes de abrir — mas ignorar isso é cilada jurídica.
E mais um: Receita Saúde. Desde 1º de janeiro de 2025, todo médico em pessoa física com paciente particular é obrigado a emitir recibo eletrônico pelo app da Receita Federal (Receita Federal — Receita Saúde simplifica a vida de milhares de brasileiros, 2025). O app é gratuito — mas exige cadastro no Carnê-Leão Web e conta Gov.br com nível prata ou ouro. Se você não configura isso antes da primeira consulta particular, vai ter que emitir retroativo e explicar pra Receita.
Custo total de abertura: R$2.000 a R$5.000, dependendo do estado.
A decisão que vai definir se você cresce ou paga aluguel vazio
Esse é o erro que vejo mais. É onde médico se ferra com mais frequência nos primeiros 12 meses de consultório.
É comum o médico recém-formado assinar contrato de 12 meses de sala própria num bairro nobre de SP antes de ter agenda que sustente o custo fixo. Conta típica: aluguel entre R$1.500–2.500, condomínio entre R$800–1.500, IPTU proporcional — soma que passa fácil de R$3.000–4.000 por mês, mesmo com agenda praticamente zerada.
O caminho mais seguro é o coworking médico — que sai a partir de R$396–672/mês em planos mensais em SP, ou R$10–25 por hora em planos flexíveis. Só depois que a agenda encher é que faz sentido avaliar sala própria com número real de ocupação na mão.
Mas o mais importante não é evitar o erro pontual — é entender por que ele é tão comum. A lógica que empurra pro erro é sedutora: “Consultório próprio passa mais seriedade.” E passa (um pouco). Só que aí não passa paciente nenhum a mais.
Minha opinião direta: antes de 60–70% de ocupação da agenda, assinar sala própria em contrato longo é aposta errada. Você está pagando custo fixo alto por estrutura vazia. É como comprar carro do ano antes de saber quantas corridas vai fazer.
Coworking médico no primeiro ano não é fraqueza. É inteligência financeira.
Equipamentos: o mínimo real sem romantismo
É comum ver médico recém-saído da residência comprar tudo na primeira semana — mesa de exame premium, ECG, otoscópio importado, cadeiras de couro — antes de ter agenda que justifique o investimento. O resultado é capital parado em equipamento ocioso enquanto o consultório ainda não tem paciente nenhum.
Consultório básico (clínica geral, pediatria, ambulatório inicial) precisa de:
| Equipamento | Custo estimado |
|---|---|
| Mesa de exame | R$800–1.800 |
| Esfigmomanômetro + estetoscópio | R$400–900 |
| Otoscópio / oftalmoscópio | R$300–600 |
| Balança + antropômetro | R$500–1.200 |
| Computador + monitor | R$3.000–5.000 |
| Impressora | R$600–1.200 |
| Mobiliário básico (mesa, cadeiras, poltrona) | R$1.500–3.000 |
| Total estimado | R$7.100–13.700 |
E antes da especialidade. Cardiologista precisa de ECG. Dermatologista de dermoscópio. Ginecologista de colposcópio e mesa específica. A especialidade dobra ou triplica essa conta — compra quando tiver demanda que justifique, não antes.
Mas o custo recorrente que quase nunca aparece na planilha de abertura é o prontuário eletrônico: iClinic, Doctoralia Agenda, GestãoDS — os mais usados no Brasil — custam de R$100 a R$300/mês para médico solo. Não é opcional se você quer conformidade com as exigências do CFM pra registro de prontuário.
A stack que recomendo pra começar: Receita Saúde + prontuário eletrônico + agente de WhatsApp pra confirmação e lembrete de consulta. Essa combinação dispensa secretária nos primeiros meses e custa menos de R$300/mês total.
Recorrentes mensais: o número que importa
Todo mundo pergunta o custo de abertura. O que sangra caixa é o mensal.
| Item | Custo mensal estimado |
|---|---|
| Contador | R$300–800 |
| Prontuário eletrônico | R$100–300 |
| Coworking médico (12–16h/semana) | R$400–900 |
| WhatsApp Business + agente IA | R$80–200 |
| Material de consumo (luvas, papel, álcool gel) | R$200–400 |
| CRM PJ (anuidade com desconto ÷ 12) | R$16–79 |
| Total recorrente básico | R$1.100–2.700/mês |
Médico solo começando no coworking pode ter estrutura funcional por R$1.100–2.700/mês. Isso é R$13.000–32.000/ano de custo operacional.
Com sala própria no modelo SP que calculei (aluguel + condomínio + IPTU), o valor sobe pra R$5.000–7.000/mês — antes de equipamento, material de consumo e contador. Deu ruim? Sim, pra muita gente que assinou antes de ter agenda.
A diferença entre coworking estratégico e sala própria prematura pode ser R$30.000–50.000 no primeiro ano. Isso é mais do que o custo total de abertura. Pensa nisso antes de assinar qualquer coisa.
E quando a agenda encher e o movimento aparecer, você vai querer saber como continuar crescendo — veja como atrair os primeiros 30 pacientes do seu consultório recém-aberto.
Disclaimer: valores de CNPJ, CRM e tributos variam por estado e situação específica. Consulte contador especializado em medicina antes de decisões fiscais. Este post é educacional e não substitui orientação contábil ou jurídica individualizada.
Fontes citadas
- Resolução CFM nº 2.447/2025 — Desconto de 80% na anuidade para PJ médica · acessado em 2026-06-03
- Receita Federal — Receita Saúde obrigatório desde janeiro de 2025 · acessado em 2026-06-03
- Anvisa — Autorização de Funcionamento de Empresas de Saúde · acessado em 2026-06-03
- CRM Virtual — Tabela de Anuidades e Taxas 2026 · acessado em 2026-06-03
Perguntas frequentes
Médico pode ser MEI em 2026?+
Não. Profissões com registro obrigatório em conselho profissional estão vetadas no MEI por lei. O CNPJ médico é SLU ou LTDA, tributado no Simples Nacional (Anexo III ou V dependendo do fator R) ou Lucro Presumido. Este post não substitui orientação contábil — consulte contador especializado em saúde antes de qualquer decisão fiscal.
Quanto fica o imposto no Simples Nacional para médico PJ?+
Depende do fator R (relação folha/receita). No Anexo III, alíquota efetiva inicial para receita até R$180k/ano fica em torno de 6–11%. No Anexo V (fator R abaixo de 28%), alíquota sobe. Desde janeiro de 2026, incide 10% sobre dividendos distribuídos acima de R$50.000/mês para pessoa física, inclusive optantes do Simples Nacional. Confirme o enquadramento correto com seu contador. Não é orientação contábil.
Vigilância Sanitária é obrigatória mesmo para consultório pequeno?+
Sim, sem exceção. Consultório médico é estabelecimento de serviço de saúde de risco. Sem licença sanitária municipal você está sujeito a interdição e multa. Em SP e RJ a fiscalização intensificou em 2025. Consulte a Vigilância Sanitária do seu município antes de abrir.
Qual o prazo médio de breakeven de um consultório novo?+
Referência prática: médico com 15–20 consultas/semana a R$200–400 cada cobre os recorrentes do modelo coworking desde o primeiro mês. Com sala própria em SP, precisa do dobro para só empatar. Para entender como a tributação afeta o líquido nesse cálculo, leia IRPF 2026 para médico autônomo: o que deduzir no livro caixa.
CRM-PJ é obrigatório mesmo sendo consultório solo?+
Sim. Qualquer empresa prestadora de serviços médicos precisa de inscrição no CRM como pessoa jurídica. A empresa fica sujeita a fiscalização do conselho regional, igual ao médico PF. Não tem como escapar legalmente.