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Automações Médico Solo · Carreira

Quanto custa abrir consultório médico solo em 2026?

Regys Mendes Automações Médico Solo · Carreira 8 min
Atualizado em 01/01/1970
Consultório médico solo moderno com mesa, computador e equipamentos básicos

Plantonista virando consultório em 2026. Vi esse movimento acontecer com médico de todas as especialidades — e quase sempre a conta chega errada. Todo mundo pergunta quanto custa abrir. Ninguém calcula quanto custa manter. Esses dois números são muito diferentes, e é no segundo que a conta quebra.

Vou te dar os números reais. Sem planilha romântica de “investimento mínimo R$5k” que circula em blog financeiro genérico. Antes de entrar no custo em si, tem um detalhe que vai cortar expectativa na raiz.

Se você está começando a pensar na decisão entre consultório e convênio, leia antes consultório próprio vs convênio: o que ninguém conta ao recém-formado — a base financeira é a mesma, mas o contexto é diferente.

Médico não pode ser MEI. Ponto.

Vi muito médico me perguntar se dava pra abrir MEI pra consultório. Não cola. O Microempreendedor Individual é vedado para profissões regulamentadas por conselho profissional. CRM é exatamente esse caso — isso está na Lei Complementar nº 123/2006 e é confirmado pela Receita Federal em qualquer tentativa de cadastro. Não é burocracia opinável. É bloqueio automático.

Você vai abrir SLU (Sociedade Limitada Unipessoal) ou LTDA com sócio. E vai precisar de contador desde o primeiro mês, não tem como contornar isso.

Formalização completa: junta comercial + inscrição municipal + certificado digital ICP-Brasil. Esse trio custa entre R$700 e R$2.000 dependendo do estado, com processo levando 2 a 4 semanas com contabilidade especializada. Contador pra médico solo: de R$200 a R$800/mês, dependendo do volume de notas e da complexidade tributária.

Depois do CNPJ aberto, vem o CRM-PJ: registro da empresa no Conselho Regional de Medicina do seu estado. Taxa de inscrição em torno de R$1.114 (referência SP 2026, varia por estado), paga uma única vez. A anuidade varia por capital social — consultório solo com capital até R$50.000 paga R$948/ano, conforme tabela publicada pelo CRM Virtual em 2026.

Mas tem um detalhe da Resolução CFM nº 2.447, de 25 de setembro de 2025 que pouca gente sabe: 80% de desconto na anuidade do CRM-PJ para empresas com no máximo 2 sócios (um obrigatoriamente médico), exclusivamente atividade médica, sem filial. Isso derruba o R$948 para menos de R$190/ano pra consultório solo padrão. O prazo de pedido pra 2026 já passou (era 20 de janeiro) — mas vale guardar pra renovação de 2027.

Aí vem um que aparece na segunda semana e pega muita gente de surpresa: a licença sanitária da Vigilância Sanitária municipal. Consultório médico é estabelecimento de serviço de saúde — opera sem ela e está sujeito à interdição. A taxa é calculada por metragem + complexidade da atividade, varia por município. A Anvisa confirma que a licença de funcionamento para estabelecimentos de saúde é obrigatória e emitida pela Vigilância Sanitária local. Não tem um número fixo nacional — consulte a Visa do seu município antes de abrir — mas ignorar isso é cilada jurídica.

E mais um: Receita Saúde. Desde 1º de janeiro de 2025, todo médico em pessoa física com paciente particular é obrigado a emitir recibo eletrônico pelo app da Receita Federal (Receita Federal — Receita Saúde simplifica a vida de milhares de brasileiros, 2025). O app é gratuito — mas exige cadastro no Carnê-Leão Web e conta Gov.br com nível prata ou ouro. Se você não configura isso antes da primeira consulta particular, vai ter que emitir retroativo e explicar pra Receita.

Custo total de abertura: R$2.000 a R$5.000, dependendo do estado.

A decisão que vai definir se você cresce ou paga aluguel vazio

Esse é o erro que vejo mais. É onde médico se ferra com mais frequência nos primeiros 12 meses de consultório.

Era setembro de 2024. Um médico que eu acompanhava estava prestes a assinar contrato de 12 meses de sala própria num bairro nobre de SP. Aluguel: R$2.200. Condomínio: R$1.200. IPTU: R$520. Quase R$4.000 por mês — com agenda praticamente zerada na época.

Perguntei: “Você já tem 15 consultas confirmadas por semana?” Resposta: “Não, tô começando.”

Levei uns 10 minutos nessa conversa. Ele foi pro coworking médico — que sai a partir de R$396–672/mês em planos mensais em SP, ou R$10–25 por hora em planos flexíveis. Em 4 meses, agenda cheia. Aí sim avaliou sala própria com número real de ocupação na mão. Economizou, no mínimo, R$12.000 naquele intervalo.

Mas o mais importante não é que o erro foi evitado — é entender por que ele quase aconteceu. A lógica que empurra pro erro é sedutora: “Consultório próprio passa mais seriedade.” E passa (um pouco). Só que aí não passa paciente nenhum a mais.

Minha opinião direta: antes de 60–70% de ocupação da agenda, assinar sala própria em contrato longo é aposta errada. Você está pagando custo fixo alto por estrutura vazia. É como comprar carro do ano antes de saber quantas corridas vai fazer.

Coworking médico no primeiro ano não é fraqueza. É inteligência financeira.

Equipamentos: o mínimo real sem romantismo

Conversei com uma clínica geral recém-saída da residência que foi comprar tudo na primeira semana — mesa de exame premium, ECG, otoscópio importado, cadeiras de couro. Quase R$30.000 de uma vez. Na segunda semana me perguntou se tinha como devolver o ECG. Zero paciente ainda.

Consultório básico (clínica geral, pediatria, ambulatório inicial) precisa de:

EquipamentoCusto estimado
Mesa de exameR$800–1.800
Esfigmomanômetro + estetoscópioR$400–900
Otoscópio / oftalmoscópioR$300–600
Balança + antropômetroR$500–1.200
Computador + monitorR$3.000–5.000
ImpressoraR$600–1.200
Mobiliário básico (mesa, cadeiras, poltrona)R$1.500–3.000
Total estimadoR$7.100–13.700

E antes da especialidade. Cardiologista precisa de ECG. Dermatologista de dermoscópio. Ginecologista de colposcópio e mesa específica. A especialidade dobra ou triplica essa conta — compra quando tiver demanda que justifique, não antes.

Mas o custo recorrente que quase nunca aparece na planilha de abertura é o prontuário eletrônico: iClinic, Doctoralia Agenda, GestãoDS — os mais usados no Brasil — custam de R$100 a R$300/mês para médico solo. Não é opcional se você quer conformidade com as exigências do CFM pra registro de prontuário.

A stack que recomendo pra começar: Receita Saúde + prontuário eletrônico + agente de WhatsApp pra confirmação e lembrete de consulta. Essa combinação dispensa secretária nos primeiros meses e custa menos de R$300/mês total.

Recorrentes mensais: o número que importa

Todo mundo pergunta o custo de abertura. O que sangra caixa é o mensal.

ItemCusto mensal estimado
ContadorR$300–800
Prontuário eletrônicoR$100–300
Coworking médico (12–16h/semana)R$400–900
WhatsApp Business + agente IAR$80–200
Material de consumo (luvas, papel, álcool gel)R$200–400
CRM PJ (anuidade com desconto ÷ 12)R$16–79
Total recorrente básicoR$1.100–2.700/mês

Médico solo começando no coworking pode ter estrutura funcional por R$1.100–2.700/mês. Isso é R$13.000–32.000/ano de custo operacional.

Com sala própria no modelo SP que calculei (aluguel + condomínio + IPTU), o valor sobe pra R$5.000–7.000/mês — antes de equipamento, material de consumo e contador. Deu ruim? Sim, pra muita gente que assinou antes de ter agenda.

A diferença entre coworking estratégico e sala própria prematura pode ser R$30.000–50.000 no primeiro ano. Isso é mais do que o custo total de abertura. Pensa nisso antes de assinar qualquer coisa.

E quando a agenda encher e o movimento aparecer, você vai querer saber como continuar crescendo — veja como atrair os primeiros 30 pacientes do seu consultório recém-aberto.

FAQ

Médico pode ser MEI em 2026?

Não. Profissões com registro obrigatório em conselho profissional estão vetadas no MEI por lei. O CNPJ médico é SLU ou LTDA, tributado no Simples Nacional (Anexo III ou V dependendo do fator R) ou Lucro Presumido. Este post não substitui orientação contábil — consulte contador especializado em saúde antes de qualquer decisão fiscal.

Quanto fica o imposto no Simples Nacional para médico PJ?

Depende do fator R (relação folha/receita). No Anexo III, alíquota efetiva inicial para receita até R$180k/ano fica em torno de 6–11%. No Anexo V (fator R abaixo de 28%), alíquota sobe. Desde janeiro de 2026, incide 10% sobre dividendos distribuídos acima de R$50.000/mês para pessoa física, inclusive optantes do Simples Nacional. Confirme o enquadramento correto com seu contador. Não é orientação contábil.

Vigilância Sanitária é obrigatória mesmo para consultório pequeno?

Sim, sem exceção. Consultório médico é estabelecimento de serviço de saúde de risco. Sem licença sanitária municipal você está sujeito a interdição e multa. Em SP e RJ a fiscalização intensificou em 2025. Consulte a Vigilância Sanitária do seu município antes de abrir.

Qual o prazo médio de breakeven de um consultório novo?

Referência prática: médico com 15–20 consultas/semana a R$200–400 cada cobre os recorrentes do modelo coworking desde o primeiro mês. Com sala própria em SP, precisa do dobro para só empatar. Para entender como a tributação afeta o líquido nesse cálculo, leia IRPF 2026 para médico autônomo: o que deduzir no livro caixa.

CRM-PJ é obrigatório mesmo sendo consultório solo?

Sim. Qualquer empresa prestadora de serviços médicos precisa de inscrição no CRM como pessoa jurídica. A empresa fica sujeita a fiscalização do conselho regional, igual ao médico PF. Não tem como escapar legalmente.


Disclaimer: valores de CNPJ, CRM e tributos variam por estado e situação específica. Consulte contador especializado em medicina antes de decisões fiscais. Este post é educacional e não substitui orientação contábil ou jurídica individualizada.


POR QUE ESCREVEMOS SOBRE ISSO

Trabalho com médico desde 2024. Construindo ferramenta de automação pra plantão, fui me aproximando da realidade financeira do médico autônomo — plantão, consultório, a transição entre os dois. E uma coisa que aprendi nesse tempo: médico é excelente clínico e péssimo calculador de custo fixo próprio. Isso não é crítica, é observação de padrão que vi se repetir.

Um médico estava me contando os planos de abrir consultório. Perguntei quanto esperava gastar. Ele me deu um número — R$8.000, tudo incluso, já estava procurando sala pra alugar. Pedi pra ele montar a planilha comigo. Em 15 minutos, a conta chegou em R$5.400/mês só de custo fixo com a sala própria que ele tinha na cabeça. Mais R$1.800 de contador, prontuário, material. Quase R$7.200/mês antes de ver o primeiro paciente.

Ele ficou quieto por um tempo. Dois meses depois foi pro coworking. Seis meses depois, agenda cheia — aí avaliou sala própria com dado real na mão.

Esse cálculo parece óbvio assim escrito. Mas na pressão de “finalmente ter consultório próprio”, a maioria não faz. Por isso escrevo sobre isso.

Fontes citadas