Pego Plantão
Automações Médico Solo · Marketing Médico

Publicidade médica no Instagram: o que o CFM 2336 permite em 2026

Regys Mendes Automações Médico Solo · Marketing Médico 7 min
Médico segurando smartphone com perfil profissional no Instagram aberto, em consultório iluminado

A Resolução CFM 2.336/2023 entrou em vigor em março de 2024, e boa parte dos médicos ainda não sabe o que mudou de verdade. Vi médico travar o perfil inteiro com medo de postar conteúdo completamente permitido. E vi médico receber notificação do CODAME por achar que “antes e depois” estava liberado sem condição. A confusão é real. E o preço de errar pode ser alto.

Não é conselho jurídico — para a sua situação específica, consulte o CRM do seu estado. Mas vou explicar o que a norma diz, ponto a ponto, pra você não errar no óbvio.

O que a 2336 realmente liberou — e o asterisco que ninguém explica

A narrativa que circulou quando a resolução saiu foi “CFM liberou antes e depois”. Verdade — mas com asterisco enorme, tipo daqueles que muda tudo.

A resolução autoriza o uso de imagem de paciente, inclusive com antes e depois, exclusivamente em caráter educativo: quando o médico explica quando uma pessoa deve procurar ajuda, as intervenções possíveis, a intervenção em si e o que pode acontecer — incluindo resultados insatisfatórios. Está no portal oficial de publicidade médica do CFM.

Na prática, isso muda tudo:

  • ✅ Dermatologista mostrando evolução de tratamento de acne com legenda explicando o protocolo, quando procurar especialista e o que esperar de resultado realista
  • ❌ Dermatologista postando “olha o resultado incrível do meu paciente em 30 dias!” sem qualquer contexto educativo

Mas a resolução também liberou — sem asterisco — coisas que a norma anterior proibia ou deixava em área cinza:

  • Divulgação de preços das consultas e serviços
  • Selfies individuais ou com equipe
  • Repostar depoimentos de pacientes (com condições — ver adiante)
  • Campanhas promocionais (também com restrição)

Isso é considerável. Antes de março de 2024, médico que divulgava preço de consulta já pegava olhão do CRM. Hoje é explicitamente permitido. E claro: antes de postar qualquer imagem ou dado de paciente, adequar o consultório à LGPD continua sendo etapa que não tem como pular — dado de saúde é dado sensível pela Lei 13.709/2018, independente do que a resolução do CFM diga sobre publicidade.

O que ainda é proibido — onde todo mundo tropeça

Tem lista de armadilhas que a maioria dos médicos não conhece. Vou direto ao ponto.

Promoções casadas. Pode fazer promoção. O que não pode é promoção do tipo “contrate o procedimento X e leve o Y de brinde”. Isso cria incentivo comercial que distorce a decisão clínica do paciente. Campanha de vacinação com desconto? OK. “Faça botox e ganhe consultoria de skincare grátis”? Processo ético em cima.

Filmagem de procedimentos por terceiros. A norma é explícita: a única exceção para filmagem por terceiros é o parto. Qualquer outro procedimento — cirurgia, procedimento ambulatorial, exame — não pode ter câmera de terceiro. O médico pode filmar a si mesmo durante o ato. Pessoa da clínica filmando ao lado não pode. Simples assim.

Título sem RQE. Vou te contar uma coisa. O CODAME confirmou que anunciar especialidade sem o Registro de Qualificação de Especialista no CRM é uma das irregularidades mais frequentes encontradas nas varreduras de redes sociais. Vi muito médico colocar “Especialista em Medicina do Esporte” no bio do Instagram sendo que tem pós-graduação lato sensu — não especialização reconhecida pelo CFM. A norma diz: pode mencionar a pós-graduação, mas obrigatoriamente com “NÃO ESPECIALISTA” em caixa alta logo depois do título. Literal. A norma especifica caixa alta. Colocar em rodapé, em fonte 8, não cumpre. Não cola.

Depoimentos de pacientes com superlativo. Pode repostar elogio de paciente — mas sem adjetivos que prometam resultado ou denotem superioridade. “Médico muito atencioso, saí com a dúvida resolvida” pode. “Médico incrível, o melhor da cidade, curou minha artrose em 3 semanas!” não pode — cria expectativa de resultado, e isso o CFM proíbe expressamente.

(E sim, a diferença entre “atencioso” e “melhor da cidade” parece sutil até você receber a notificação do CODAME às 8h de uma sexta-feira.)

As penalidades que ninguém quer conversar

Processo ético não é burocracia que prescreve na gaveta. As sanções previstas vão de advertência confidencial até cassação do registro médico — com publicação no Diário Oficial e nos sites dos CRMs estaduais.

No meio do caminho: censura pública (publicada em jornais de grande circulação e no portal do CRM) e suspensão do exercício profissional por até 30 dias. Trinta dias sem trabalhar. Com publicação. Isso existe.

O CODAME — Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos — de cada CRM estadual é quem fiscaliza. E não espera denúncia: o CREMERS confirmou que há varredura ativa nas redes sociais desde 2024. Você pode estar sendo analisado agora sem ter feito nada pra chamar atenção.

A trajetória típica de um processo começa com notificação do CODAME, período de defesa e, se necessário, julgamento no Tribunal de Ética Médica. Primeiro erro geralmente termina em advertência ou censura confidencial. Mas fica na ficha. Segundo erro escala.

Isso sem contar o risco civil separado. Se você deixou subentendido uma promessa de resultado num post e o paciente ficou insatisfeito, você deu argumento pro advogado do outro lado. São dois processos diferentes, correndo em paralelo.

Como crescer no Instagram sem bater no muro do CFM

A lógica que funciona: eduque primeiro, mostre resultado como consequência da educação.

Um pneumologista que explica asma ocupacional — causas, diagnóstico diferencial, quando procurar especialista — e depois mostra evolução de paciente que recuperou função pulmonar está dentro da norma e construindo autoridade real ao mesmo tempo. Um pneumologista que só posta “antes e depois da minha intervenção” sem contexto está na linha de fogo do CODAME — e ainda não está posicionando nada de valor.

Médico que entende isso constrói perfil que resiste a qualquer varredura. O que vai ficar pra trás é quem continua postando resultado como portfólio ou quem trava de vez com medo do CFM sem nem ter lido a resolução.

Dicas concretas que funcionam dentro da norma:

  1. Documente o caráter educativo. Guarde a legenda original, o raciocínio do post, a fonte que embasou. Se vier fiscalização, você mostra evidência do que motivou o conteúdo.
  2. Consentimento por escrito, sempre. A resolução exige. Documento assinado — físico ou digital com assinatura eletrônica — é diferença entre responder processo ou não.
  3. Anonimato mesmo com autorização. Contraintuitivo, mas está na norma: mesmo que o paciente autorize aparecer, a publicação deve garantir seu anonimato. Recorte o rosto ou use ângulo que não identifique.
  4. Especialidade = RQE registrado no CRM. Sem exceção.
  5. Reposte depoimento completo ou não reposte. Não edite, não recorte a parte favorável. Reposte como o paciente escreveu.

Mas — e esse é o ponto que mais importa pra quem quer construir uma base de pacientes do zero: o médico que usa a 2336 do jeito certo não está navegando em brechas. Está usando o espaço real que a norma abriu pra construir autoridade com conteúdo educativo honesto. Esse é o caminho que dura. Os atalhos costumam durar até a próxima varredura.

FAQ

Posso divulgar o preço da minha consulta no Instagram? Sim. A Resolução CFM 2.336/2023 permite explicitamente a divulgação de preços de consultas e serviços. Promoções casadas (X + Y de brinde) seguem proibidas.

Posso repostar depoimento de paciente sem pedir autorização? Não. Precisa de autorização explícita do paciente. E o depoimento repostado não pode ter adjetivos que prometam resultado ou denotem superioridade.

Minha clínica pode se chamar “Clínica Especializada em Cardiologia” se eu não tenho RQE de Cardiologia? Não. Sem RQE registrado no CRM para aquela especialidade, o profissional não pode anunciar especialidade em nenhum canal — incluindo nome da clínica, bio do Instagram e Google Meu Negócio.

O CODAME só age por denúncia ou também faz varredura ativa? Faz as duas coisas. Atua por denúncia de colegas, pacientes ou qualquer cidadão, e também realiza varreduras ativas por iniciativa própria desde 2024.

Tenho pós-graduação lato sensu. Posso mencionar no perfil? Pode — desde que acompanhado de “NÃO ESPECIALISTA” em caixa alta imediatamente após o título. Sem essa marcação, a publicação é irregular segundo a Resolução 2.336/2023.


POR QUE ESCREVEMOS SOBRE ISSO

Semana passada, uma médica que usa o Pego Plantão me perguntou no Instagram se podia postar fotos dos pacientes do UPA onde ela trabalha pra “documentar a rotina”. Parei o que estava fazendo pra explicar o que a resolução diz sobre filmagem por terceiros e o que define “caráter educativo”.

Ela não estava sendo descuidada. Ela simplesmente não sabia. Ninguém tinha explicado de forma direta — o CFM escreve em juridiquês, os artigos de revista jurídica são pra advogado, e os cursos de “marketing médico” ensinam o que vende, não o que protege.

Construo produto pra médico há alguns anos. Essa confusão bate na minha porta o tempo todo, de formas diferentes. Esse post é a conversa que fiz com ela, escrita de forma que qualquer médico lê num intervalo de plantão e sai sabendo onde pisam.

— Regys

Fontes citadas