Pego Plantão
Automações Médico Solo · Prescrição & Prontuário

Prontuário SOAP: Modelo Prático para Consulta de 20 Minutos

Regys Mendes Automações Médico Solo · Prescrição & Prontuário 8 min
Atualizado em 01/01/1970
Médico preenchendo prontuário SOAP estruturado em tablet durante consulta de 20 minutos

Você termina uma consulta de 20 minutos, o próximo paciente já está na sala e o prontuário continua em branco na tela. Clica, digita umas três palavras, salva. Semana que vem você não lembra o que discutiu.

Isso não é preguiça. É falta de modelo.

O SOAP resolve exatamente isso: quatro campos obrigatórios que te forçam a registrar o que importa em menos de 5 minutos. Usado desde os anos 60 na medicina interna americana, adotado pelo e-SUS APS no Brasil e exigido — indiretamente — pelo Código de Ética Médico. Não é modinha. É protocolo.

Neste post você vai ver o modelo completo com tempo por campo, exemplos reais e o que o CFM exige que esteja registrado. Se você está pensando em gravar e transcrever consultas com IA para preencher o SOAP automaticamente, leia isso antes — entender a estrutura manual é o pré-requisito para saber se a transcrição gerada está boa ou não.


O que é o SOAP e por que o e-SUS o adotou no Brasil

SOAP é sigla de Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano. Foi criado por Lawrence Weed nos anos 60 como parte do Registro Médico Orientado por Problemas (RMOP) — a ideia era transformar o prontuário de relato narrativo caótico em documento estruturado com problema identificado e plano registrado.

O Ministério da Saúde adotou o método no sistema e-SUS APS, que roda em praticamente todos os serviços de atenção primária do país (Base Conceitual e-SUS APS — MS). Lá o SOAP vem junto com o CIAP2 — Classificação Internacional de Atenção Primária — para registrar o motivo da consulta de forma estruturada. Não é detalhe técnico burocrático. É o governo federal reconhecendo que consulta sem registro estruturado é buraco negro de informação clínica.

E no consultório solo? A lei não cita “SOAP” pelo nome. Mas a Resolução CFM 1.638/2002 define que o prontuário deve conter “conjunto de informações, sinais e imagens registradas, geradas a partir de fatos, acontecimentos e situações sobre a saúde do paciente e a assistência a ele prestada” (Prontuário Médico — CFM). Na prática: queixa, exame, diagnóstico, conduta. SOAP preenche isso de forma organizada.

Tem uma cilada clássica aqui. Vi muito médico de consultório particular achando que porque não está no SUS, pode registrar como quiser — ou quase nada. Não cola. O Art. 70 do Código de Ética proíbe o médico de “negar acesso ao paciente ao seu prontuário, ficha clínica ou similar”. Sem prontuário completo, você não tem o que mostrar num processo ético ou civil.

Prontuário vazio é passivo jurídico.


S e O: queixa e exame em menos de 3 minutos

A regra prática é simples: S fica com o que o paciente fala; O fica com o que você examina e mede.

Subjetivo (S) — 1 a 2 minutos de registro:

  • Queixa principal em 1 frase exata do paciente, com duração
  • Sintomas associados que ele mencionar
  • Histórico relevante ao episódio atual

Exemplo de S para um hipertenso em retorno de 20 minutos:

“Dor de cabeça há 3 dias, occipital, pior pela manhã. Tomando losartana 50mg regularmente. Pressão em casa ontem: 160/100.”

Objetivo (O) — 2 minutos de registro:

  • Sinais vitais do dia
  • Achados do exame físico direcionado
  • Resultados de exames laboratoriais ou imagem que chegaram

Exemplo de O:

“PA: 158/98 mmHg. FC: 78bpm. IMC 31. Edema maleolar 1+. Exame neurológico sumário sem deficit focal.”

Vou te contar uma coisa: aprendi esse timing assistindo meu cardiologista me atender no começo de 2026. Fui por prevenção — histórico familiar pesado, 6 parentes com infarto, minha mãe operou do coração. O que ficou na minha cabeça não foi o diagnóstico. Foi a forma de registrar: ele abria o PDF dos exames, anotava no sistema só os valores alterados — sigla, resultado, ponto. Ignorava o resto. Em menos de 2 minutos ele tinha o O daquela consulta fechado.

Isso virou conceito central numa feature de leitura de exames que construí depois para um cliente. Mas a lição pro SOAP é direta: O não é cópia do laudo. É extrato do que mudou ou importa agora.


Muita gente preenche S e O e pula A e P. Deu ruim.

Avaliação (A) — 1 minuto de registro:

  • Hipótese diagnóstica principal + CID (obrigatório para emissão de qualquer documento)
  • Diagnósticos diferenciais quando relevante
  • Evolução do problema comparada ao encontro anterior

Exemplo de A:

“Hipertensão arterial sistêmica — CID I10. PA não controlada com esquema atual. Descartar hipertensão de jaleco branco. Sem emergência hipertensiva.”

Plano (P) — 1 minuto de registro:

  • Ajuste de medicação (se houver): dose, via, duração
  • Exames solicitados
  • Encaminhamentos
  • Orientações ao paciente — o que você disse sobre estilo de vida
  • Próxima consulta com prazo definido

Exemplo de P:

“Aumentar losartana para 50mg 2x/dia. Solicitar MAPA 24h. Orientado: redução de sódio, caminhada 30min/dia 5x semana. Retorno em 30 dias ou antes se PA >180 em casa.”

A e P são os campos com maior impacto médico-legal. Em qualquer processo — CFM, civil, trabalhista — é A que mostra seu raciocínio clínico e P que prova o que você determinou fazer. Se A estiver vaga (“PA alterada”) e P omisso (“continuar medicação”), você não tem como demonstrar o que avaliou e prescreveu.

Mas a lei não para em ética. A Resolução CFM 1.821/2007 (Conselho Nacional de Arquivos) autoriza prontuário 100% digital — com certificado digital padrão ICP-Brasil — e define prazo mínimo de guarda de 20 anos a partir do último registro em papel. Para prontuário eletrônico devidamente digitalizado: guarda permanente.

Sim. Permanente.

Quer deixar esse registro digital com validade legal desde o início? Confira o que o CFM e a LGPD exigem do prontuário eletrônico do médico autônomo antes de escolher o sistema — tem detalhe sobre certificação SBIS que muda sua decisão.


Montando o template SOAP para o seu sistema (com timing real)

A consulta de 20 minutos, na prática, fica assim:

FaseTempoSOAP
Acolhimento + queixa3-4 minS em construção
Exame físico + revisão de exames5-6 minO sendo registrado
Raciocínio + diagnóstico3-4 minA sendo digitado
Prescrição + orientações4-5 minP sendo fechado
Encerramento + próxima consulta1-2 min

Funciona. Mas tem um detalhe que trava todo mundo: você tem que registrar em tempo real ou em paralelo — não depois da consulta. Depois você já esqueceu o que o paciente disse com as próprias palavras. E o S pede exatamente as palavras dele, não o resumo seu.

Sistema com campo de texto livre? Cria um template fixo e cola como snippet rápido:

S: [queixa + duração] | [sintomas associados] | [hx relevante]
O: [PA] [FC] [Peso] | [exame físico] | [exames]
A: [hipótese + CID] | [diferencial] | [evolução]
P: [medicação] | [exames] | [encaminhamento] | [orientações] | [retorno]

iClinic, Doctoralia, até um Google Docs com atalho de teclado funcionam. Não precisa ser ferramenta cara — precisa ser rápida de abrir e preencher.

E — olha que ponto importante — se você usa Memed para prescrição, o P do seu SOAP já fica parcialmente preenchido quando você salva a receita. O que não fica automático: exames solicitados e orientações verbais. Esses você ainda precisa digitar. Sobre enviar a prescrição digital ao paciente depois que fechou o P: veja o passo a passo de receita Memed pelo WhatsApp — tem especificidade sobre o que muda com a RDC Anvisa 1.000/2025 para receituário azul e amarelo.


FAQ

O SOAP é obrigatório por lei para médico de consultório particular?

Não com esse nome. A lei não cita “SOAP”. Mas a Resolução CFM 1.638/2002 define o que o prontuário deve conter — e esses elementos correspondem ao S, O, A e P. Usar o método é a forma mais eficiente de cumprir a norma e ter um documento utilizável em perícias.

Posso registrar só a queixa e a conduta, sem estrutura SOAP formal?

Pode — não tem polícia do SOAP. Mas você vai perder rastreabilidade clínica e vai ter dificuldade enorme em lembrar o raciocínio de 6 meses atrás. Problema real em paciente crônico com múltiplos retornos.

Quanto tempo preciso guardar o prontuário?

Mínimo 20 anos a partir do último registro, em suporte papel (Resolução CFM 1.638/2002). Prontuário eletrônico digitalizado conforme CFM 1.821/2007: guarda permanente. Sim, permanente.

O SOAP serve para todas as especialidades?

Foi criado na medicina interna, mas é usado em atenção primária, psiquiatria, clínica geral, ginecologia, pediatria — praticamente tudo. A estrutura é flexível: o S de uma consulta psiquiátrica vai ser diferente do S de um pronto-socorro, mas os quatro campos ainda fazem sentido.

Posso usar IA para gerar o prontuário SOAP automaticamente?

Pode, com ressalvas. A Resolução CFM 2.454/2026 regulamenta IA na medicina. O prontuário gerado por IA precisa ser revisado e assinado pelo médico — a responsabilidade não transfere para a máquina. Se você usar transcrição automática, valide campo a campo antes de assinar.


POR QUE ESCREVEMOS SOBRE ISSO

Publicamos posts sobre gravar consulta com IA e prontuário eletrônico — mas nunca fechamos o básico: o que é SOAP e como estruturar isso em 20 minutos reais.

Quando fui no cardiologista no começo de 2026 — histórico familiar pesado, 6 parentes com infarto, fui por prevenção — o que ficou na minha cabeça não foi o diagnóstico. Foi como ele registrava enquanto conversava: campo por campo, sem narrativa, só o que importava. Quando a consulta terminou, o prontuário estava fechado.

Conversei com médicos que usam o Pego Plantão. A dor não era tecnologia — era processo. A ferramenta veio antes do método.

Método primeiro, ferramenta depois. Você entende o SOAP, qualquer sistema vira só veículo.

(Regys Mendes — não sou médico. Sou o dev que constrói as ferramentas. Orientação clínica fica com o CFM.)


Disclaimer: Este post é informativo sobre estruturação de prontuário médico. Não substitui orientação do CFM, do seu CRM regional ou de assessoria jurídica especializada em direito médico. As resoluções citadas podem ter sido atualizadas após a data de publicação — confira sempre no portal.cfm.org.br.

Fontes citadas