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Imposto do Plantonista PJ: o que sai do bruto em 2026

Regys Mendes Plantão · Financeiro 8 min
Atualizado em 01/01/1970
Médico plantonista calculando impostos da PJ médica com documentos fiscais sobre a mesa

Você fechou um plantão de 12h, recebeu R$ 3.500 na conta da PJ e ficou feliz. Mas o que sobra depois que Receita Federal, INSS e ISS passam a faca? Dependendo do regime tributário que você escolheu — e de como está estruturada a sua empresa —, o líquido real pode variar entre R$ 2.300 e R$ 2.850 no mesmo recebimento. A diferença não é detalhe; em 12 plantões por mês, isso vira R$ 6.600 a mais (ou a menos) por ano no seu bolso.

Antes de entrar nos números: se você ainda não sabe se compensa mais ser PJ ou CLT, o comparativo CLT vs PJ para plantonista em 2026 cobre essa conta primeiro. Este post pressupõe que você já está ou vai estar como PJ e quer entender o que sai do bruto em cada regime.

⚠️ Disclaimer: este post tem caráter informativo. Simule sempre com um contador especializado em saúde antes de mudar de regime tributário.

Os regimes disponíveis para médico plantonista PJ

Médico plantonista que opera como PJ tem três regimes possíveis: Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real. O terceiro praticamente não existe no cenário do plantonista solo — Lucro Real é para empresa com estrutura contábil robusta e, regra geral, faturamento acima de R$ 78 milhões por ano. A discussão prática é entre os dois primeiros.

Cada um tem uma lógica diferente. No Simples Nacional, você paga um percentual sobre o faturamento bruto via DAS (documento único de arrecadação). No Lucro Presumido, você apura IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e ISS separados — e ainda recolhe INSS sobre o pró-labore por fora.

Mas a frase que todo plantonista esquece de ouvir: o regime certo depende do seu faturamento e da sua folha de pagamento. Tem um mecanismo chamado Fator R que muda tudo no Simples — e quem não sabe disso pode estar pagando o dobro do necessário.

Vi muito médico trocar de regime sem fazer essa conta. Uns foram parar no Anexo V do Simples e ficaram pagando mais do que pagariam no Lucro Presumido. Outros foram pro Lucro Presumido sem calcular o INSS sobre pró-labore e levaram susto no primeiro boleto. Não é culpa do regime — é falta de simulação.

Simples Nacional: o Fator R que ninguém te explica direito

No Simples Nacional, a tributação do médico PJ cai no Anexo III ou no Anexo V dependendo do Fator R — relação entre a folha de pagamento (incluindo pró-labore do sócio) e o faturamento do mês.

  • Fator R ≥ 28% → Anexo III → alíquota efetiva de 6% a 17,42% sobre o faturamento
  • Fator R < 28% → Anexo V → alíquota efetiva de 15,5% a 30,5%

A diferença é brutal. E o que decide o Fator R é o pró-labore que você retira da empresa.

Exemplo: plantonista com faturamento de R$ 20.000 por mês. Para manter Fator R ≥ 28%, precisa de pró-labore de ao menos R$ 5.600 por mês. Se tirar menos — ou não tirar nada —, cai pro Anexo V e a carga tributária quase dobra na faixa inicial.

Mas espera. Pró-labore maior significa INSS maior também — é sobre o pró-labore que incide a contribuição previdenciária do sócio. Então não é simplesmente “paga mais pró-labore e fica no Anexo III”. Tem uma otimização a fazer. O ponto ideal é calcular o menor pró-labore que mantém Fator R ≥ 28% — e isso é trabalho de contador especializado em saúde.

Para quem se enquadra no Anexo III na primeira faixa (faturamento até R$ 180.000 por ano, ou R$ 15.000 por mês), a alíquota efetiva começa em 6%. Isso inclui IRPJ, CSLL, COFINS, PIS e ISS dentro do DAS. INSS patronal também está dentro. Só não inclui o INSS sobre pró-labore do sócio — essa parte cai fora do DAS, separado.

Para ficar no Simples Nacional, faturamento anual tem que ser de até R$ 4,8 milhões (R$ 400 mil por mês). Plantonista solo raramente chega perto disso.

Fonte: Regime do Simples Nacional — Receita Federal

Contexto de ganho: com o piso FENAM 2026 em R$ 3.324,17 por plantão de 12h, um plantonista com 8 plantões por mês fatura R$ 26.600 bruto. No Anexo III, a carga tributária vai de R$ 1.596 a R$ 3.200 dependendo da alíquota efetiva. No Anexo V, esse número vai de R$ 4.123 a R$ 8.100. A diferença é o mesmo que um plantão extra por mês evaporando.

Lucro Presumido: a conta que parece simples mas não é

No Lucro Presumido, a tributação é calculada sobre uma “presunção de lucro” que a Receita Federal estabelece por tipo de serviço. Para serviços médicos, a base presumida é 32% do faturamento.

Sobre essa base, incidem:

TributoAlíquotaCálculo (faturamento R$ 20.000)
IRPJ15% sobre 32%R$ 960
CSLL9% sobre 32%R$ 576
PIS0,65% sobre faturamentoR$ 130
COFINS3% sobre faturamentoR$ 600
ISS2% a 5% (varia por município)R$ 400 a R$ 1.000

Total: em torno de R$ 2.666 a R$ 3.266 por mês para R$ 20.000 de faturamento — ou entre 13,3% e 16,3% do bruto. Antes do INSS sobre pró-labore.

E aqui mora o susto que muita gente não calcula: o INSS do médico sócio (contribuinte individual) é 20% sobre o pró-labore, limitado ao teto previdenciário de R$ 8.475,55 em 2026. Se o pró-labore for R$ 8.000 por mês, sai R$ 1.600 de INSS por mês — R$ 19.200 por ano.

Fonte: Teto do INSS 2026 — gov.br/inss

Não é luxo pesquisar isso antes. É conta.

O Lucro Presumido costuma vantajoso quando o Fator R não fecha (pró-labore muito alto empurra o Simples pro Anexo V) e quando o faturamento é alto o suficiente para diluir os custos fixos de escrituração contábil exigida.

INSS e IRPF: o que sai do bolso além da empresa

Mesmo sendo PJ, o médico plantonista pode ter rendimentos como pessoa física — plantão avulso pago por CPF, laudo isolado, aula em faculdade. Esses rendimentos entram no carnê-leão e são declarados separadamente.

Carnê-Leão 2026: a partir de janeiro de 2026, quem recebe até R$ 5.000 por mês como pessoa física ficou isento de IRPF pelo mecanismo de redução de até R$ 312,89. Quem recebe entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350: redução parcial e decrescente. Acima disso, a tabela progressiva: 7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%.

Fonte: Tributação de 2026 — Receita Federal

Outro ponto que plantonista PF ignora: desde janeiro de 2025, a Receita Saúde é obrigatória para médicos que recebem de pessoa física. Cada consulta ou laudo prestado a paciente PF precisa de recibo digital emitido pelo app da Receita. Não emitir significa risco de malha fina — os dados cruzam automaticamente.

Fonte: Receita Saúde — Receita Federal

Para o plantonista que recebe só de hospital ou clínica via nota fiscal da PJ, o carnê-leão não se aplica — o imposto cai dentro da empresa. Mas quem recebe parte pelo CPF (sem emissão de nota pela empresa) está se enrolando sem perceber.

Às 2h de uma terça-feira de madrugada, fui conferir a estrutura tributária de um amigo médico — intensivista, São Paulo, faturava R$ 35.000 por mês em plantões de UTI. Ele tinha PJ aberta há três anos, pagava contador e achava que estava tudo certo. Pró-labore: R$ 3.000 (8,5% do faturamento). Fator R: 8,5%. Regime: Anexo V do Simples Nacional. DAS mensal: R$ 6.300. Com um ajuste no pró-labore para R$ 9.800 (28% do faturamento), o DAS caiu para R$ 2.100 — e o INSS adicional sobre o pró-labore mais alto foi de R$ 1.960 por mês. Economia líquida: R$ 2.240 por mês. Em 12 meses, R$ 26.880 que ele estava deixando na mesa.

Cilada de otimização que parece trivial mas ninguém faz sem contador especializado em saúde.

FAQ

Médico plantonista pode ser MEI? Não. Médico é vedado de se enquadrar como MEI pela Lei Complementar 128/2008. Profissionais regulamentados por conselhos de classe não podem. Abertura de CNPJ como médico passa necessariamente pelo Simples Nacional, Lucro Presumido ou Lucro Real.

E se eu receber plantão pelo CPF, sem nota fiscal da empresa? Aí você opera como contribuinte individual (PF). Precisa lançar no carnê-leão mensalmente. Se a renda PF ficar abaixo de R$ 5.000 por mês, está isento de IRPF em 2026. O hospital que paga por CPF também desconta INSS de 11% na fonte. Para entender as deduções nesse cenário, veja o post sobre IRPF 2026 do médico autônomo PF e livro caixa.

Qual regime é melhor: Simples Nacional ou Lucro Presumido? Depende do volume e do Fator R. Para faturamento abaixo de R$ 20.000 por mês com Fator R ≥ 28%, Simples Nacional Anexo III quase sempre vence. Para faturamentos maiores ou quando o Fator R não fecha no Simples, Lucro Presumido pode ser mais eficiente. Não existe resposta universal. Simule com contador antes de decidir.

Com que frequência devo revisar o regime da minha PJ? Sempre que o faturamento médio mudar mais de 20% por três meses consecutivos — ou ao menos uma vez por ano. Mudança de regime no Simples Nacional tem prazo (início do exercício seguinte). No Lucro Presumido a transição também precisa de planejamento. Faça a simulação antes do prazo virar problema.


POR QUE ESCREVEMOS SOBRE ISSO

A primeira vez que entrei a fundo nas finanças de um plantonista foi em 2024, ajudando a estruturar a stack de automação de um médico intensivista de BH. A parte de captação de plantão eu conhecia bem. Mas quando ele me pediu opinião sobre a estrutura tributária da PJ dele, fui olhar junto.

O que encontrei foi o seguinte: ele tinha um contador, pagava em dia, não devia nada. E estava no Anexo V do Simples Nacional pagando quase o dobro do que deveria. Não por má-fé de ninguém. O contador era bom — mas era generalista. Não tinha a visão específica do Fator R aplicada a serviços médicos, que tem regra diferente de comércio e indústria.

Rolou que eu fui pesquisar mais fundo por conta própria. Vi que esse erro é absurdamente comum entre plantonistas. Médico fatura bem, abre PJ, deixa na mão de qualquer contador e não volta a ver esse número nunca mais. Dois, três, quatro anos passam com imposto dobrado. Às vezes cinco anos.

O Pego Plantão nasceu pra ajudar plantonista a captar melhor. Mas captar bem e pagar imposto errado é meio caminho andado pra lugar nenhum. Construí esse post pra você ter o vocabulário mínimo — Fator R, Anexo III vs V, teto do INSS 2026 — e chegar na reunião com o contador sabendo as perguntas que valem dinheiro.

— Regys Mendes, criador do Pego Plantão

Fontes citadas